O ponto de partida
O ano era 2015. Eu tinha por volta de 18 anos, sempre gostei de me vestir bem, sempre me preocupava com a forma como me apresentava. Naquela época eu andava de skate e consumia algumas marcas ligadas a esse universo. Foi quando conheci algumas marcas da gringa do nicho, como DGK, Grizzly, Diamond e Stussy. Mas uma das minhas favoritas era a HUF — acho o nome dessa marca muito interessante.
Nessa fase eu estava trabalhando como Jovem Cidadão, um programa do governo que ajuda jovens a entrar no mercado de trabalho. Eu ganhava um salário de R$300, que para mim na época já era uma grana boa. Ainda tinha VR e VT, o que ajudava bastante.
Só que as roupas que eu gostava de consumir eram caras e difíceis de ter acesso. O meu paraíso era a Galeria do Rock, no centro de São Paulo, onde várias lojas me deixavam vidrado. Com meu salário, até conseguia comprar algumas peças, mas precisava me esforçar. Além disso, como eu também andava de skate, gastava com lixa, shape, rolamento, truck e rodas.
Foi aí que me veio a ideia: “E se eu fizesse minhas próprias camisetas?”. Eu já sabia mexer no Photoshop, então a parte de criação não seria problema. O que eu não fazia ideia era de como transformar aquilo em realidade.
A ideia da marca
Conversei com meu primo, Rafael Ferri, que era muito próximo de mim nessa época. Nosso tio sempre foi uma referência, e ele havia criado um adesivo com a sigla MIG, inspirado em um avião de caça. Eu ainda não sabia dessa referência, mas consegui dar um novo significado ao nome: My Inner Ghetto (“meu gueto interior”, em português).
Como minhas inspirações vinham das marcas gringas que já consumia, o nome caiu como uma luva. Foi ali que nasceu o nome da nossa marca: MIG.
Lembro perfeitamente de um dia, dentro de um ônibus, voltando da casa dos meus tios com meu primo. Estávamos juntos sonhando com essa ideia, e esse momento ficou marcado como o ponto de partida do projeto.
O primeiro drop
Alguns meses depois, consegui juntar uma graninha para iniciar de fato o projeto. Fiz pesquisas no centro da cidade e na própria Galeria do Rock, até que mandei confeccionar a primeira leva.
As camisetas saíram mais parecidas com peças promocionais, de qualidade inferior em relação às marcas que eu consumia. Mesmo assim, eu estava animado por ter feito acontecer. Foram cerca de 20 camisetas, e o investimento inicial foi de R$609, incluindo impressão e telas.
Eu e meu primo conseguimos vender tudo muito rápido. Aquilo me deu a sensação de que poderia virar algo maior. Nessa fase, eu não produzia as camisetas do zero: comprava as peças prontas e mandava estampar os desenhos que criava no Photoshop. Já era um “designer por brincadeira”.
O segundo drop e os desafios
Com o sucesso do primeiro drop, a MIG ganhou mais fôlego. Mas, ao mesmo tempo, eu e meu primo começamos a ter alguns desentendimentos. Eu mergulhava de cabeça no projeto, investindo tempo, energia e dinheiro, enquanto sentia que ele não estava na mesma sintonia. No fim, decidi tocar o projeto sozinho.
Para o segundo drop, eu sabia que precisava evoluir a qualidade. Fui atrás de novos fornecedores, conversei com lojistas, pesquisei muito e aprendi na prática. Foi nesse processo que conheci o Marcelo, na região de Santana. Ele produzia camisetas para lojas da própria Galeria e me apresentou um modelo mais próximo do que eu buscava: golas caneladas 2x1, modelagem quadrada e larga.
Dessa vez, investi em 100 peças, divididas em três modelos. A qualidade era infinitamente melhor do que a primeira coleção, e o resultado foi um verdadeiro sucesso.
O fim de um ciclo
Apesar da evolução, eu estava desanimado com a marca. A saída do meu primo do projeto deixou um vazio, já que começamos juntos. Ainda assim, consegui vender a maior parte das camisetas, cheguei a colocar algumas em lojas do bairro e até tentei consignado em uma loja maior — mas não deu muito certo. Eu era novo e, muitas vezes, não passava a credibilidade necessária para fechar boas parcerias.
Mesmo assim, a MIG foi a minha primeira escola dentro da moda. Foi ali que aprendi sobre fornecedores, modelagem, estampas, vendas e até mesmo sobre o que significa empreender de verdade.
A MIG nasceu de uma paixão pelo skate, pelas marcas que me inspiravam e pela vontade de criar algo meu. Foram dois drops, muitas lições e uma bagagem que carrego até hoje. Esse projeto me mostrou que, mesmo sem experiência, quando existe vontade, dá para fazer acontecer.